SOBRE A ARTE

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O “Ano Pavarotti”


Este foi o “Ano Pavarotti”, decretado por sua pátria, a Itália: faz dez anos que o grande cantor morreu. No calendário de celebrações, a maior ocorreu na Arena de Verona. Entre outros lances, o Grupo da Fundação Luciano Pavarotti de Modena, sua cidade natal, saudou a data com a ária “Libiami”, de La Traviata, ópera de Puccini. Também se exibiu o vídeo de uma homônima, a Fundação Luciano Pavarotti da Guatemala, apresentado por Rigoberta Menchú (Prêmio Nobel da Paz), a militante dos direitos dos indígenas maias, país onde há uma escola de música criada sob os auspícios dele.


Bela homenagem em Verona foi a presença no palco, interpretando árias e canções, dos dois parceiros de Pavarotti que com ele formaram um trio na série de 34 concertos pelo mundo afora, obtendo sucesso sem precedentes. O primeiro da série foi regido por Zubin Mehta e se intitulou “Os três tenores”, nas Termas de Caracala, em Roma, ao fim da Copa do Mundo na Itália, em 1990. E esse foi o estopim para a transformação de Pavarotti em superstar pop. Os outros dois são Plácido Domingo e José Carreras, agora idosos e de cabelo branco, mas soltando as vozes, mais melodiosas do que nunca.


É difícil falar de Pavarotti sem registrar certas características que faziam dele um artista e uma pessoa muito especial. Personalidade de força incomum, sua figura no palco era magnética: tinha uma presença poderosa e era sem dúvida um “animal de cena”.


A voz maviosa, sem uma aspereza sequer, afinadíssima, atingia alturas excelsas. Foi num espetáculo em Nova York, em 1973, que Pavarotti foi catapultado para a fama mundial. Já era conhecido, mas a dimensão que atingiu a partir daí fica em outro patamar. Levava-se a ópera A filha do regimento, de Donizetti, com a célebre soprano Joan Sutherland e a orquestra do Metropolitan Opera House, um dos teatros de ópera mais importantes do mundo. Nessa data Pavarotti alcançou os famosos 9 dós de peito seguidos com a voz cheia, não em falsete como se costuma. Levou o público ao delírio e foi chamado à cena 17 vezes. Daí para a frente, ninguém o seguraria.


Sempre pronto a cantar em prol de causas humanitárias, não se pode falar de Pavarotti sem lembrar sua bonomia, o corpanzil e o rubicundo rosto de menino. Era gordo daquele jeito porque, afora cantar, o que mais gostava na vida era comer – e comer macarrão. Fazia questão de cozinhar o seu e em turnê levava o necessário para acionar o fogão no camarim mesmo. Outros astros pop, ou do rock, exigem champanhe francês às dúzias, latas de caviar beluga etc. Ele não: ele só queria cozinhar e comer seu macarrão diário. Viajava em avião abarrotado de víveres, presunto e queijo italianos, vinho Lambrusco do terroir de sua região, a Emilia Romagna. Marca de vários tipos, o predileto de Pavarotti era o espumante tinto seco, rústico, bem refrescado, que ele dizia ser um vinho “selvaggio e ineducato”. Na primeira oportunidade, produzia caldeirões de macarrão para todo mundo.


Tinha um apartamento em Manhattan, mas nunca renegou sua Modena natal. Filho de um padeiro com bela voz de tenor (“melhor que a do filho”, gostam de dizer os nativos), ali manteve residência, ali morreu e ali foi enterrado no cemitério local.


Entre as cenas memoráveis, é inesquecível seu recital no Hyde Park de Londres, ao ar livre. O príncipe Charles e lady Diana estão na primeira fila. Como é Inglaterra, começa a chover e não para mais. Conhecendo bem o péssimo clima do país, os espectadores vieram prevenidos e abrem guarda-chuvas pelo gramado afora. Pavarotti foi o primeiro a perceber que as pessoas ficavam com a visão impedida e não mais conseguiam enxergar nem ele nem o palco. Não teve dúvida: fez um apelo ao público para fechar os guarda-chuvas. Todos atenderam a seu apelo. E antes de todos o casal principesco, dando exemplo de boa educação – como aliás deveria ser de regra para governantes. Ficaram até o fim, encharcados e com o cabelo escorrendo, mas firmes no espírito público e na atenção para com os outros.


por Walnice Nogueira Galvão

#Pavarotti

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