SOBRE A ARTE

SOBRE A ARTE

A voz de Svetlana


Animais loucos e famintos, fetos mal-formados, pessoas caindo nas ruas, fulminadas por mal súbito, jardins encanecidos, com a vegetação branca por conta da radiação, casas queimadas, roubadas, destruídas, policiais usando a força para levar aqueles que teimam em permanecer na zona proibida, corrupção, mentiras oficiais, falta de remédios adequados, bebedeiras homéricas, casamentos desfeitos, médicos e enfermeiras morrendo ao lado dos pacientes, suicídios, falta de informação, informação desencontrada, deformações horrorosas, dor, pânico, abnegação. E coragem.


Esta miscelânea apocalíptica é consequência de abril de 1986, quando o reator quatro da usina de Chernobyl (pronuncia-se Tchernóbil) começou a pegar fogo e explodiu. De início, matou apenas um trabalhador. Hoje, o número de mortos é incalculável. Há quem fale em centenas de milhares. Isso sem contar os doentes, na casa dos milhões. Basta pensar que a nuvem radioativa decorrente do incêndio chegou até a Irlanda. E que um quarto de Belarus, país vizinho, ficou contaminado.


Ao abordar tema tão difícil, a bielorussa Svetlana Alexievich, Nobel de Literatura em 2015, inverteu a versão comum dos fatos e deixou as estatísticas de lado para investir no lado humano. O resultado é seu livro mais famoso, Vozes de Chernobyl, que será lançado no meio de abril pela Companhia das Letras.


É um livro assombroso, nas duas acepções da palavra. Suas histórias vão do mais puro terror a exemplos de conduta admiráveis. Com pouquíssimas palavras suas, num exercício radical de objetividade, ou imparcialidade, em que pese a fina costura da edição, a autora se limita a reproduzir os depoimentos de viúvas, bombeiros, soldados, engenheiros, políticos, médicos, professores, jovens, pilotos, físicos e outros que estiveram diretamente envolvidos com a tragédia.


As entrevistas, realizadas entre 1990 e 1996, dez anos após o acidente, incluíram também refugiados dos vários conflitos subsequentes ao final da União Soviética, que preferiram morar nos arredores plutônicos do desastre nuclear a sofrer com a violência das guerras. Assim como muitas velhinhas e alguns poucos anciãos que não conseguiam acreditar naquele perigo invisível e teimaram em ficar em suas terras, plantando, comendo e vivendo como se tudo não passasse de algum truque absurdo do governo.


Absurdo, aliás, é uma palavra apropriada para descrever o caos que se instalou na região. Evacuados as cidades e os vilarejos próximos, soldados surgiam para matar os animais domésticos e das fazendas. Há inúmeras valas comuns desses bichos. Os que fugiam, ficavam desnorteados. No teto do reator, jovens voluntários tentavam limpar os detritos para evitar consequências piores. Podiam ficar no máximo um minuto e meio por vez, tal a força da radiação. Todos morreram, meses depois. O mesmo aconteceu com os pilotos de helicóptero, que sobrevoavam a boca de luminosidade espectral, a temperaturas inumanas, para despejar toneladas de areia. E ainda os mineiros que cavaram um túnel por baixo do reator para proteger o solo da infiltração insidiosa de partículas nucleares. Mortos, todos.


A delicadeza com que Alexievich alinhava os depoimentos não apenas dá os contornos mais realistas à história, de maneira a ficar bem claro o que de fato aconteceu, quais foram as causas e principalmente quais as consequências, como também extrai a verdade íntima do sofrimento e perplexidade de cada um. Impossível não se comover ao limite das lágrimas com os episódios que abrem e fecham o livro. No primeiro deles, a viúva de um dos primeiros bombeiros a combater o fogo relata como seu marido saiu de repente de casa, sem nenhuma proteção especial e como foi definhando de maneira horripilante até a morte, duas semanas depois, juntamente com todos os seus colegas. No último, também uma viúva (Sempre as mulheres! Quanta dor e coragem!), desta vez de um piloto de helicóptero, descreve a via-crúcis do marido. Seu amor por aquele homem de quase dois metros, um dia forte e valente, cujo rosto vai literalmente se desfazendo, é de uma força arrebatadora.


E o que dizer dos filhos? É possível que leitores mais sensíveis fiquem de estômago revirado ao pensar no pequeno que pediu o boné do pai, um dos muitos “limpadores” do reator quatro, e morreu em pouco tempo por conta de um tumor cerebral. Não à toa, a taxa de suicídios era alta. É alta, tempo presente, já que o lixo libertado vai provocar chagas por dezenas de anos ainda.


Diante de tudo isso, há um pudor, evidente na autora, de não aparecer ou de ser extremamente fiel às entrevistas, a ponto de indicar pausas, choro, barulhos externos – mas só quando necessário, para compor com exatidão o estado de ânimo do entrevistado ou o clima da conversa. Não há julgamento de valor ou interferência de qualquer tipo. Seu ouvido, o gravador, a atenção compassiva, a edição inteligente, sensível, em que monólogos se sucedem a coros, foram a forma que encontrou para dar vazão digna a essas vozes. Que ainda devem ser ouvidas. Assim como as de Fukushima, um novo mistério assustador.


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