SOBRE A ARTE

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Passados 120 anos, Drácula permanece imortal

Livro escrito por Bram Stoker segue influenciando não apenas a literatura, mas o cinema, os quadrinhos e a cultura pop de forma geral.

Quando acordou de um pesadelo, em março de 1890, Bram Stoker (1847-1912) registrou as imagens bizarras que atormentaram sua noite: "O jovem sai do quarto", ele escreveu, no dia seguinte, "vê garotas, uma tenta beijá-lo, não na boca, mas na garganta. Velho conde intervém - fúria & cólera diabólicas - esse homem me pertence". Em 1897, essa cena faria parte de sua obra máxima: "Drácula", que completa neste mês 120 anos de publicação. Quando foi lançado, ao custo de seis xelins em uma tiragem inicial de três mil exemplares, "Drácula" causou discordâncias entre críticos. A revista Athenaeum chamou o romance de "uma simples sequência de eventos grotescamente implausíveis", enquanto o The Bookman opinou que "lê-se o relato inteiro com absorto interesse". O tempo indicou a resposta: é seguro dizer que Drácula superou expectativas, tornando-se ícone de uma ideia aterradora de imortalidade e poder. Seu domínio superou fronteiras da literatura, atingindo o imaginário cultural mundial. O livro foi publicado em um contexto em que o gênero horror encontrava vazões através da literatura. "Foi em pleno período vitoriano, conservador a seu modo", lembra André de Sena, professor do departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "As linhagens da literatura de horror geralmente florescem em contextos só aparentemente adversos (vide o fantástico surgindo em pleno Iluminismo). Contudo, havia toda uma tradição de literatura vampírica anterior ao livro, o que lhe garantia um 'nicho' que, nos países anglo-saxões, sempre foi bem aceito", ressalta. Stoker recorre à mitologia do vampiro, mas sugere novas perspectivas. "Apesar de o mito do vampiro literário existir desde a Antiguidade, no Romantismo e no Pós-Romantismo ele adquire características próprias, um personagem 'outsider' que ajuda no processo de repensar os costumes, a religião, a moral, com tendência subversiva", explica André. "O livro tem características românticas, mas a estética preponderante no período já é o realismo, o que gera um maior senso da espacialidade e da verticalidade psicológica dos personagens", explica o acadêmico.

O lançamento de "Drácula" deu continuidade a uma tradição crescente de literatura fantástica na língua inglesa. "O diálogo do Drácula acontece em especial com a rica tradição fantástica do século 19. Em termos da literatura em língua inglesa, já temos: os contos de Edgar Allan Poe, 'Frankenstein', 'O médico e o monstro' e 'O retrato de Dorian Gray'. Assim, quando o romance de Bram Stoker aparece, os principais clássicos do fantástico em prosa e verso estão recebidos, debatidos e até mesmo em algum nível sistematizados", explica Cristhiano Aguiar, escritor e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. O autor conseguiu radiografar sua época através das ferramentas do terror e do mistério. "Ele incorpora as ansiedades com os problemas migratórios vividos pela Inglaterra naquele momento. Drácula é um imigrante, afinal de contas", diz Cristhiano. "Estudos também apontam o quanto o sangue no romance dialoga com as ansiedades surgidas pelas políticas higienistas, pela nova psiquiatria e pela angústia causada pela proliferação de doenças venéreas na Inglaterra vitoriana", detalha. Os símbolos explorados no livro, em especial as alegorias que acompanham a figura do vampiro, seguem relevantes também no tempo atual. "A força do vampiro no imaginário mítico e literário é insuperável", opina Cristhiano. "Ele é um dos principais arquétipos da literatura ocidental. Quem nunca esteve em alguma relação abusiva, ou passou por uma situação na vida cotidiana na qual se sentiu 'vampirizado' de alguma maneira? O vampiro continua a responder a todas estas inquietações e por isso ele se renova de geração em geração", ressalta. Drácula permanece um mistério cativante e sangrento, um personagem que fascina pelo que apresenta de segredos e sombras, violência e metáforas existenciais. "Da política brasileira às histórias em quadrinhos, Drácula está em toda parte", opina Cristhiano. "Batman, por exemplo: é uma mistura de dois arquétipos literários, Sherlock Holmes e Drácula. Mesmo quando não é retomado diretamente como personagem, não há dúvidas que Drácula sempre será o rei dos vampiros, porque é a partir deste romance que as outras narrativas partem", ressalta. Terror, sangue e sombras "Nosferatu" (1922), assinado por F.W. Murnau, é um dos ícones do cinema mudo

O vampiro mais famoso influenciou não apenas a literatura, mas também o cinema. A grande quantidade de filmes baseados em Drácula indica a importância do personagem para a cultura pop. "Verifiquei, no IMDb, que é o banco de dados mais confiável da atualidade do cinema, que existem 525 produtos audiovisuais que usam o nome do Drácula como personagem, principal ou coadjuvante", diz Rodrigo Carreiro, professor e doutor do departamento de cinema da UFPE. "Isso apenas no audiovisual, sem contar quadrinhos, games. Drácula está presente em todas as instâncias midiáticas vinculadas à ideia de cultura pop", ressalta. Entre as adaptações cinematográficas marcantes, Rodrigo lista seis filmes: "Nosferatu" (1922), de F.W. Murnau; "Drácula" (1931), de Tod Browning, com o lendário Bela Lugosi no papel principal; "O vampiro da noite" (1958), protagonizado por Christopher Lee; a refilmagem "Nosferatu" (1979), de Werner Herzog; "Drácula de Bram Stoker" (1992), de Francis Ford Coppola, com Gary Oldman como o vampiro; e "Drácula 3D" (2012), de Dario Argento. "Essas refilmagens têm uma coisa em comum. Elas seguem o esqueleto básico da trama original, com pequenas variações, e tentam apresentar uma nova roupagem para o Drácula, tanto social quanto cultural, devidamente adaptada para as novas gerações", destaca o pesquisador.

São filmes que embora apresentem pontos em comum acabam sugerindo propostas diferentes sobre o vampiro. "O Drácula do 'Nosferatu' (1922), que é uma adaptação não oficial, talvez seja uma das versões mais fiéis no que diz respeito à representação visual do vampiro. Já o Drácula de 1931, que foi baseado numa peça de teatro de sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra, foi o mais famoso, foi o que realmente lançou a figura do vampiro no imaginário da cultura pop, por lidar com a questão da sensualidade, da sexualidade, do exotismo", diz Carreiro. Diferentes faces "O Drácula de 1931 acrescentou o som e a imagem galanteadora, inclusive com a ideia da mordida, de chupar sangue, que por si só é uma ideia bastante sensual, uma espécie de metáfora sexual muito bem engendrada, que pôde ser reaproveitada nas outras adaptações. O Drácula de Christopher Lee acrescentou a cor, especialmente o vermelho, a cor do sangue. É um Drácula ainda mais sensual que o Drácula de 1931", detalha. Entre os filmes estão projetos autorais, feitos por diretores que com os anos e as experiências se tornaram ícones do cinema. "Cada diretor imprime sua marca pessoal à mesma história secular e mitológica", diz Rodrigo. "Herzog usa a história do Drácula para apresentar ideias sobre a natureza implacável e o ser humano de forma um tanto inglória, tentando lutar contra essa força que o esmaga. O Drácula de Coppola retoma a ideia de um ser romântico, flertando com a reencarnação. A carreira de Argento estava em baixa e ele aproveitou a oportunidade para injetar uma novidade tecnológica, que era filmar pela primeira vez essa história mitológica em 3D", explica.


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