SOBRE A ARTE

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Velázquez, o amigo do rei



Um reino em seu apogeu, mas às portas da decadência. Uma família real fisicamente degenerada, maltratada por inúmeros casamentos consanguíneos, habitando um palácio sombrio, por onde vagava uma corte mantida sob o mais rígido protocolo. Em seu epicentro, o comandante absoluto, o rei espanhol Felipe IV, de 16 anos, pintor nas horas vagas, profundo conhecedor de história da arte e colecionador apaixonado. Eis que um de seus ministros, o conde-duque de Olivares, apresenta-lhe um jovem artista de 24 anos, dono de um talento assombroso que rivalizava apenas com sua própria ambição. Foi nesse ambiente épico, de parca mobilidade hierárquica, que Diego Velázquez (1599-1660) iniciaria sua ascensão fulgurante, não apenas do ponto de vista artístico, mas também social.


A história coleciona casos de artistas pobres e geniais que só ganhariam reconhecimento depois da morte. Velázquez é diferente. Foi em seu período de bonança material, sob a proteção do rei, que ele pintou suas obras-primas, exemplares arrebatadores de um barroco realista ao qual ele deu uma dimensão sem precedentes.


Nascido em Sevilha, pulsante coração econômico do império espanhol, filho de um advogado de ascendência nobre portuguesa que desde sempre estimulara o talento precoce do filho, Velázquez foi admitido como aprendiz de um dos maiores pintores da cidade, Francisco Pacheco. Ele ensinou ao pupilo as técnicas básicas do trabalho, mas também lições de humanismo e os preceitos do estilo da Contrarreforma, exigindo que ele traduzisse ao público religioso cenas bíblicas de uma forma natural. Assim, o jovem Velázquez pinta retratos de personagens santos como A Imaculada Conceição e A adoração dos magos, mas também personagens populares como uma velha senhora cozinhando ovos ou um carregador de água de Sevilha. Tinha paixão por cenas ordinárias do cotidiano, as chamadas pinturas de “bodegones”. Tudo isso com um traço de tenebrismo à Caravaggio, que Velázquez interpreta de maneira livre. Aos que o criticavam pela dureza de seus traços, em contraponto ao ídolo da época, o italiano Rafael, ele respondia com desdém: “Prefiro ser o primeiro no vulgar ao segundo no delicado”. O encantamento de Pacheco com o pupilo é tamanho que ele lhe dá a mão de sua filha, Juana, e o estimula a partir para conquistar a corte em Madri.


Assim que termina seu primeiro retrato de Felipe IV, em 1623, Velázquez é nomeado retratista oficial da corte, instalado num ateliê do palácio. O rei tem a única cópia da chave e faz questão de usá-la diariamente para acompanhar os trabalhos de seu pintor. Majestosa, a pintura de Velázquez reflete com abuso de pretos e marrons o ambiente lúgubre da corte, lotada de nobres disformes, bufões monstruosos e anões para os poucos momentos de entretenimento da família real. Essa característica de sua pintura seria abalada com a chegada do colega flamenco Rubens, que em 1628 passou uma temporada de oito meses no palácio. A empatia entre os dois é imediata. Rubens aconselha Velázquez a viajar para a Itália para melhorar sua arte. Com a autorização do rei, ele percorre Milão, Veneza, Parma e o Vaticano, onde aprimora as técnicas de pintura de paisagens, introduzindo cores e movimento em sua arte.


No retorno a Madri, a influência italiana faz-se sentir nos retratos do filho do rei, infante Baltasar Carlos. Mas a morte abalaria a corte madrilenha com o falecimento da rainha Isabel de Bourbon, em 1644, e do próprio Baltasar, quase dois anos depois. O rei decidiu casar-se novamente com sua sobrinha, Maria Ana da Áustria, de 13 anos, prometida ao infante morto – e teve com ela cinco filhos. Nesse intervalo, Velázquez partiu para a segunda viagem à Itália, onde pintou o papa e a Vênus. No regresso, encontrou uma corte alegre, animada pelas novas crianças, notadamente a bela infanta Margarida, que ele imortalizaria em quadros como As meninas.

Encantado com seu pintor, o rei o nomeia “aposentador” da corte, responsável pela organização das festas e das viagens. Para dar conta dos novos afazeres, muito distantes de um cotidiano solitário de artista, Velázquez é obrigado a se cercar de discípulos, como seu genro, Juan Bautista del Mazo, considerado o maior dos velasquenhos. Estima-se em 120 o número de obras de autoria do mestre, que raramente as assinava. Considerava seu traço “a maior das assinaturas”. “O que mais fascinou os contemporâneos de Velázquez foi a liberdade que ele teve de criar um estilo único, uma verdadeira escola”, diz Kientz. “Essa liberdade só foi possível graças a sua influência junto ao rei.”


A presença de Velázquez é tão capital na corte que ele começa a se enxergar como um de seus membros mais importantes. Quando finaliza As meninas, em 1656, que retrata a chegada da infanta Margarida a seu ateliê, vem a surpresa: Velázquez põe-se no quadro, ao lado da nobreza, algo impensável no rígido protocolo real. A partir daí, ele passa a se dedicar a uma nova obsessão: receber do rei a Ordem de Santiago, uma das mais altas honrarias da corte dos Habsburgos. Mas a ordem só podia ser concedida a nobres que comprovassem ascendência aristocrática. O pai de Velázquez era nobre, mas os avós maternos não. Felipe IV pede, então, uma dispensa ao papa Alexandre VII e, finalmente, a condecoração sai em 1659. O pintor mal teve tempo de saborear a vitória. Morreria no ano seguinte, exausto com os preparativos do casamento da infanta Maria Teresa com o jovem rei da França, Luís XIV. “Estou devastado por ter de viajar de dia e pintar à noite”, escreveu Velázquez a um amigo. A liberdade oferecida por um rei, como se vê, também tem seu preço.

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