SOBRE A ARTE

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Clarice Lispector como tradutora


Sabe-se que Clarice Lispector dominava pelo menos sete idiomas: português, inglês, francês e espanhol, fluentemente; hebraico e iídiche, com alguma fluência; e russo, com pouca fluência levada da infância. Como tradutora para o português, entretanto, utilizou somente o inglês, o francês e o espanhol.

Além de contos e artigos, traduziu ao todo 35 livros de diversos gêneros e escritores: 13 do inglês; 10 do francês; e 2 provavelmente do inglês ou do francês e talvez do espanhol ou do grego. Contando-se contos, foram mais de 40 traduções.


Em 1941, antes de dar início à sua carreira literária, quando começou a trabalhar na revista Vamos Ler como repórter, também contribuía com traduções, sendo a sua primeira o conto Le missionaire, de Claude Farrère.


Em 1963, após um hiato de mais de vinte anos, voltou à ativa com a tradução do inglês do romance The winthrop Woman, de Anya Selton, pela editora Ypiranga. Pelos próximos seis anos, lançou mais duas traduções do inglês pela Ypiranga, uma de Agatha Christie e outra de Alistair MacLean.


Publicou, em 1968, na Revista Jóia, a crônica Traduzir procurando não trair, em que comentou suas preocupações no processo de tradução para manter a fidelidade e outras reflexões sobre o ofício.


Em 1969, publicou sua primeira e única tradução do espanhol, do conto Historia de los dos que soñaron, de Jorge Luis Borges, no Jornal do Brasil. Em 1973, sua primeira tradução do francês, Lumière allumées, de Bella Chagal, pela editora Nova Fronteira.


No restante de sua vida, publicou diversas traduções, tanto em periódicos quanto em editoras. A última tradução publicada em vida foi a do francês do romance Le bluff du futur, de Georges Elgozy, em 1976, pela editora Artenova. Duas traduções, entretanto, ainda seriam publicadas postumamente, do francês: L’homme au magnétophone, de Jean-Jaques Abrahams, em 1978, pela Imago; e da tradução francesa Curtain, de Agatha Christie, em 1987, pela Editora Record.


As editoras em que mais publicou foram a Artenova, em um total de 11, a Nova Fronteira, 6, e a Ypiranga, 4. Os anos mais prolíficos foram 1975, com 8, 1976, com 4, e 1974, com 4.


Na sua última década de vida, em 1970, pouco depois de quando começou a escrever textos infantis, também fez três traduções adaptadas direcionadas para o público infantojuvenil, todas pela editora Abril Cultural: publicada em 1973, do inglês, Gulliver’s travels, de Jonathan Swift; The history of Tom Jones, a foundling, de Henry Filding; e postumamente em 1980, do francês, L’Ïle Mystérieuse, de Júlio Verne, postumamente em 1980.


Em 1970, publicou uma tradução baseada em O talismã, de Walter Scott, pela Ediouro. Também publicou contos reescritos a partir de traduções de Edgar Allan Poeem 1974 e 1975, que aparentemente foram escritos em um mesmo período e posteriormente reunidos em Histórias Extraordinárias de Allan Poe, pela Ediouro, de data não informada.


Traduções no exterior

No total, a obra de Clarice Lispector recebeu mais de 200 traduções para mais de 10 idiomas, do tcheco ao japonês, sendo mais de 179 traduções integrais de livros e 25 de contos publicados em periódicos. Seus livros mais traduzidos são principalmente romances: A hora da estrela, com 22 traduções; A paixão segundo G. H., também com 22; Perto do coração selvagem, com 18; Laços de família, com 16; e Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, com 15.


As traduções foram iniciadas logo depois do início de sua carreira literária e receberam uma boa acolhida da crítica especializada, sendo os idiomas com mais tradução o espanhol, o inglês e o francês.


Em 1954, seu primeiro livro a ser traduzido foi lançado na França: Perto do coração selvagem, em tradução de Denise-Teresa Moutonnier pela editora Plon. A tradução desagradou Clarice, que enviou reclamações sobre erros ao editor, Pierre de Lescure, mas acabou por preferir fingir que a tradução nunca existiu.


Em 1955, veio a primeira tradução para o espanhol: Água viva, por Haydeé Yofre para a Sudamericana. Em 1961, a primeira para o inglês: A maçã no escuro, por Gregory Rabassa para a editora da Universidade do Texas.


Em 1963, teve sua primeira tradução para o alemão como a primeira tradução de um de seus livros de contos: Laços de família, por Marianne Eyre, Margareta Ahlberg e Arne Lundgren, para a Norstedts. Em 1964, também para o alemão: A maçã no escuro, por Curt Meyer-Clason para a Classen. Em 1966, duas de suas obras são traduzidas para o alemão: Onde estivestes de noite? por Sarita Brandt para a Suhrkamp; e o conto A imitação da rosa por Curt Meyer-Clason para a Claassen.


Em 1969, A paixão segundo G. H., para o espanhol, por Juan García Gayo para a Monte Avila. Em 1973, a primeira para o tcheco: Perto do coração selvagem, por Přeložila Pavla Lidmilová para a Odeon; e também o primeiro livro de contos traduzido para o espanhol, Laços de família, por Haydeé Yofre Barroso para a Sudamericana.


Em 1974, duas traduções para o espanhol: A maçã no escuro, por Juan García Gayo para a Sudamericana; e o conto infantil O mistério do coelho pensante, por Mario Trejo para a De La Flor.


Em 1975, outras duas para o espanhol: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, por Juan García Gayo para a Sudamericana; e A via crucis do corpo, por Haydeé Yofre Barroso para a Santiago Rueda.


Em 1977, ano de sua morte, tem três obras traduzidas: A paixão segundo G. H. para o inglês, por Jack H. Tomlins para a Knopf; Perto do coração selvagem para espanhol, por Basilio Losada para a Alfaguara; e o conto Uma esperança, de Felicidade clandestina, para o espanhol, sob o título de La araña, por Haydeé Yofre Barroso para a Corregidor.


Depois de sua morte, sua obra popularizou-se cada vez mais, alcançando um ápice na década de 1980, com quase duas traduções por ano, depois da qual recebeu nova tradução em praticamente todo ano.


Depois de traduções por diversos tradutores para diversas tradutoras, editoras específicas começaram um processo de edição criterioso de suas obras, com tradução e projeto gráficos padronizados, dando um novo ápice de tradução da obra de Clarice Lispector, iniciado na década de 2000 e que ainda continua.


Das novas traduções destaca-se a série liderada por Bejamin Moser para a editora britânica Penguin Books na década de 2010, que foi iniciada com a publicação da biografia Why this world, em 2011, e tinha como intuito traduções mais fiéis que as anteriores. O objetivo da série, de acordo com Moser, que convidou outros quatro tradutores para a tarefa, é disponibilizar ao público anglófono traduções mais fieis do que as anteriores, que teriam tentado corrigir certas características da escrita da autora.


A série faz parte de uma outra maior dedicada à difusão da literatura latina e foi publicada em 2014, contando com quatro traduções: Perto do coração selvagem, pela tradutora australiana Alison Entrekin; Água viva, pelo editor Stefan Tobler; A paixão segundo G. H., pela poeta e acadêmica Idra Novey; Um sopro de vida, pelo professor universitário brasileiro Johnny Lorenz; e A hora da estrela, por Moser.

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