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SOBRE A ARTE

SOBRE A ARTE

Ver Vermeer em contexto no Museu do Louvre


Em meados do século XIX, o coleccionador e crítico de arte francês Théophile Thoré-Bürger cunhou a expressão “a esfinge de Delft” para se referir ao pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675). A história da arte subsequente e o filme Rapariga com Brinco de Pérola (2003), de Peter Webber – com a fantástica luz coada pelo director de fotografia português Eduardo Serra, que lhe valeria mesmo uma nomeação para o Óscar –, fizeram o resto: Vermeer ficou confinado a essa imagem de artista sombrio e solipsista, fechado no seu mundo inacessível ao exterior. O facto de ter pintado pouco mais de três dezenas de telas, e de ter ficado na sombra de Rembrandt no caleidoscópio das figuras que fizeram o chamado “século de ouro” da pintura holandesa, completaram esse perfil do artista de Delft.


Foi também para alterar esta visão, e para colocar em perspectiva a obra de Vermeer, no contexto do seu país e do seu tempo, que o Museu do Louvre inaugurou em 22 de fevereiro, uma exposição que vem sendo preparada desde há já cinco anos, em articulação com as National Gallery de Dublin (Irlanda) e de Washington (Estados Unidos), e com instituições de vários países que têm a rara fortuna de possuir obras do pintor d’A leiteira(1658-59).

Vermeer et les maîtres da la peinture de genre (Vermeer e os mestres da pintura de género) é o título da “exposição-acontecimento” – a qualificação é do próprio Louvre –, que reúne, pela primeira vez na capital francesa, desde 1966, doze quadros do pintor em diálogo com obras de artistas seus contemporâneos: Gerrit Dou (1613-1675), Gerard ter Borch (1617-1681), Jan Steen (1626-1679), Pieter de Hooch (1629-1684) e Frans van Mieris – o Velho (1635-1681).


Apagar e ultrapassar a lenda do artista isolado no seu mundo, silencioso e inexpugnável, é pois o propósito da mostra, que simultaneamente dá a conhecer as circunstâncias em que esta geração retratou um país – então ditos os Países Baixos Unidos – que na época vivia também um momento de ouro na sua economia. Paralelamente ao florescimento do barroco na Europa católica e do sul, a arte dos Países Baixos cultivava a designada “pintura de género”, uma espécie de estética realista que privilegiava como tema a vida quotidiana, homens e mulheres nas suas ocupações diárias.


Vista neste contexto, a pintura de Vermeer, na sua genialidade, ganha contudo novo sentido quando em diálogo com os artistas seus contemporâneos – acredita o Louvre. “Vermeer certamente viajou e viu o trabalho de outros pintores, se não ele não teria tido um tão grande conhecimento do que estava a acontecer no mundo da pintura. Como Rembrandt, ele nunca viajou para o estrangeiro, mas não foi um artista recluso em Delft, fechado a trabalhar no seu pequeno estúdio”, disse ao The Art Newspaper Blaise Ducos, o conservador do museu parisiense que é um dos comissários da exposição – os outros sendo Adriaan E. Waiboer (National Gallery, Dublin) e Arthur K. Wheelock (National Gallery, Washington).


Depois do Museu do Louvre, onde ficará até 22 de Maio, Vermeer et les maîtres da la peinture de genre viajará para os museus de Dublin (17 de Junho a 17 de Setembro) e de Washington (22 de Outubro a 21 de Janeiro de 2018).


por SÉRGIO C. ANDRADE

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